Tudo
parecia claro agora. Era óbvio que Victor não tinha aparecido à toa. Era como
se ele soubesse que eu e Artie não iríamos dar certo.
Acho que Artie nem ficaria mal com isso, afinal, ele podia ter quem ele
quisesse. Talvez fosse egoísmo achar que ele poderia se apegar a alguém como
eu.
Com a cabeça a mil e o cansaço, misturado com uma boa sensação de que tudo
estava perfeito, adormeci com a decisão de ir até Victor logo de manhã para
encontrá-lo no café central aonde ele sempre ia. Quando acordei, não movia
muito bem a cabeça, e me deparei jogada no sofá, com a roupa amassada, toda
espalhafatosa. Cocei os olhos imaginando que ainda estivesse à noite, mas ao
olhar para a direção da porta, mesmo que embaçado, deu para perceber que era no
mínimo de manhã. Procurei meu celular pela mesa de centro, e logo percebi que
estava no meu bolso. Olhei as horas como quem não quer nada.
12h36.
Espreguicei-me, a fim de estralar minhas costas. O som da campainha ecoando
pela casa e pela minha cabeça. Um pensamento vago, seguido de confusão. Quem
estaria na porta da minha casa? Não podia ser Artie, ele não seria tão
insensível, ou sensível demais ao ponto. Sentei no sofá coçando os olhos e
escutei novamente o som da campainha. Ual, eu não queria nem levantar dali e ir
até a porta! E melhor seria se eu realmente não tivesse ido.
“O que você tá fazendo aqui?” Perguntei, querendo acreditar no que os meus
olhos, mesmo que embaçados, estavam enxergando naquele momento.
“Ah, eu senti sua falta...” Ele olhou
para o chão enquanto dizia as poucas palavras que me atingiram de uma forma
minuciosa e constrangedora.
“A gente se viu ontem.” Tentei ser o
mais indiferente que pude.
“É eu sei.” Uma pausa. Pensamentos
vazios e troca de olhares. Nossos olhares se fixaram e foi como se eu tivesse
cedido a todas as suas graças novamente.
“Quer entrar?” Me senti idiota por não tê-lo convidado antes.
“Claro, obrigado!” Parecia que finalmente eu tinha entendido o que ele estava
pensando, e, mesmo com uma aparência triste e um sorriso torto, ele entrou e se
sentou no sofá laranja que meu pai tanto amava.
Jogamos conversa fora enquanto tomávamos uma Coca e comíamos uma pizza, quando
Victor e sua mania de me afetar resolveram transparecer.
“Alice, eu vou me mudar” Ele fez uma
cara de triste, mas não entendi o porquê.
“Nossa, que legal! Sua casa parece ótima, é por aqui em San Francisco mesmo?”
Estava toda entusiasmada.
“Vou pra Boston, passei em Harvard.” Ele fez uma cara de conformação e eu dei
uma risada irônica. Aquela gargalhada que as pessoas costumam dar para esconder
sentimentos totalmente opostos.
“Ok. Agora você já pode parar de brincar com esse tipo de coisa.” Falei sério,
olhando nos olhos dele, que pareciam um mar negro.
Os olhos dele se levantaram e, com um sorriso falso de ‘vai ficar tudo bem’ ele
pegou na minha mão.
“Vou amanhã de manhã, me desculpe por te dizer isso tão tarde, é porque fiquei
sabendo ontem a noite.”
Droga. Eu sempre tinha que ser a última a saber, mas pior que isso era não
poder fazer nada para que ele ficasse. Ninguém recusaria uma vaga em Harvard
por uma pessoa, a não ser que essa pessoa estivesse morrendo. Não que eu não
estivesse morrendo (se é que já não estava morta) por dentro, mas não, ele não
precisava saber disso.
O abracei, como se fosse a última vez, e não deixava de ser. Diria que foi o
abraço mais intenso que eu já pude sentir. Uma troca de emoções e palavras que
nunca foram ditas fez com que lágrimas saíssem dos meus olhos cheios de
sentimentos distintos e até mesmo, desconhecidos. Mas foram poucas lágrimas,
pois sempre tinha o orgulho que não deixava que nada disso viesse à tona.
Conversamos bem pouco e o levei até a porta.
“Vou sentir sua falta...” Foi o máximo que pude extrair dessa mistura de
saudade e raiva.
“Eu também” Victor se aproximou e tocou meus lábios “Quem sabe o destino não
cruza nossos caminhos novamente?” E se foi, andou pelas ruas já escuras da
Califórnia em direção a sua moradia, que daqui a algum tempo teria se tornado
antiga.
A única coisa que deixou foi algumas lembranças e a esperança de que um dia
voltaríamos a se encontrar. Mas esperança foi algo que eu nunca tive muito.
E lá estava eu, Alice Kirtke, parada na porta da minha casa, sem Artie, apenas
sentindo o rastro de perfume que Victor deixou. Talvez, agora nada mais me
afetasse. Bastava seguir a vida que eu tanto sonhei, e meus sonhos não incluíam
Artie ou Victor. Não mais.
