Odiava a sensação de estar dividida. De uma parte de mim estar no mundo de Artie, e outra estar no mundo de Victor.
Mesmo que era por Artie os meus sentimentos mais sinceros, Victor conseguia me deixar pensando nele, nem que fosse por uma fração de tempo. Era, de longe, inevitável.
Porque Victor tinha que aparecer justo quando a minha vida estava 'resolvida?'
Porque...
Porque sim.
Droga.
Saí apressada de onde eu estava conversando com Victor, sem me arrepender de palavra dita a ele. Orgulho. É, pode ser.
Vi que Artie estava parado perto de um poste de luz, prestando atenção em meus movimentos ligeiros, e talvez, até imaginando o que eu estava fazendo com Victor. Bem, ele só não imaginou como também perguntou.
"O que você estava fazendo lá com o Victor?" Senti as palavras chicoteando meu rosto e apertando meus pulmões.
"Trocando palavras" eu não diria que aquilo foi uma conversa "ele apareceu do nada, e eu não podia simplesmente ignorá-lo" É, não mesmo.
"Eu não confio nele, Alice" Os olhos verdes almejantes e delirantes se desviaram da direção dos meus.
"Nem em mim?" Coloquei a mão no queixo dele, deixando que a cabeça dele se apoiasse em meus dedos e fosse levantada lentamente pela força de minhas mãos.
"Confio em você" ele sorriu e me abraçou e a sensação de estar segura tomou conta de mim.
Nunca consegui entender o porque que as coisas aconteciam simplesmente para nos separar. Eu apenas gostava de imaginar que era porque realmente iria valer a pena.
"Vamos embora?" Ele sussurrou no meu ouvido. Em questão de segundos, observei o tempo e pensei que era uma ótima ideia.
"Vamos" Dei um sorriso que foi retribuído imediatamente.
Estávamos andando em direção ao estacionamento de mãos dadas e o perfume de Artie exalando em minhas narinas. "Espere aqui" Ele disse, e eu sem entender, assenti. Quando ele voltou, segurava a jaqueta dele, e a minha.
"Tome, você vai precisar" Disse arrumando a jaqueta no corpo.
"Vou?"
"Vai, a não ser que você queira ficar com frio o resto do caminho, porque vamos a pé" Lancei um olhar apreensivo.
"Mas é muito longe e..."
"Não tem problema, vai ser legal, você vai ver"
É, te digo que ele me convenceu e fomos andando. Era longe de fato, mas toda a distância se tornou imperceptível perto de Artie.
Estava frio e logicamente tinha várias pessoas nos cafés da cidade. Os braços de Artie estavam por cima dos meus ombros, e novamente o perfume dele vinha de encontro com meus pulmões, só que dessa vez misturado com cheiro de café. Mas nem os dois aromas que mais me encantam conseguiam tirar a imagem de Victor da minha cabeça. Ele parecia ter o dom de aparecer quando eu menos queria, seja pessoalmente ou apenas na minha mente.
"Olha, Alice, que casal mais bobo... Um fica sujando a ponta do nariz do outro" Artie apontava para um casal, aparentemente feliz, se sujando carinhosamente com a espuma do Capuccino. Eu dei uma olhadela rápida, não dando a mínima pros casais ali presentes, pois o conflito comigo mesma só aumentava a cada vez que o perfume de Artie me fazia fechar os olhos e repensar em minha situação.
Não sei de quem tenho mais raiva: de Artie por ser tão perfeito, Victor por ser tão surpreendente ou de mim, que não consegue deixar de ser atraída pelos dois. Eu sempre quis tudo muito definido na minha vida, com limites e consequências caso eu ultrapasse esses limites... escolhi Direito como curso justamente por isso, mas a vida parece querer me ensinar de que nem tudo é preto ou branco, luz ou trevas. Ela parece querer me mostrar que há mais dentro de mim do que eu mesma digo conhecer... há MENOS dentro de mim do que eu digo ter: menos auto-controle, por exemplo, porque se eu o tivesse não estaria pensando novamente em Victor e em como seria essa caminhada para casa se fosse ele ao invés de Artie.




















