sexta-feira, 23 de março de 2012

Capítulo 27- Alice

Tudo parecia claro agora. Era óbvio que Victor não tinha aparecido à toa. Era como se ele soubesse que eu e Artie não iríamos dar certo.
Acho que Artie nem ficaria mal com isso, afinal, ele podia ter quem ele quisesse. Talvez fosse egoísmo achar que ele poderia se apegar a alguém como eu.
Com a cabeça a mil e o cansaço, misturado com uma boa sensação de que tudo estava perfeito, adormeci com a decisão de ir até Victor logo de manhã para encontrá-lo no café central aonde ele sempre ia. Quando acordei, não movia muito bem a cabeça, e me deparei jogada no sofá, com a roupa amassada, toda espalhafatosa. Cocei os olhos imaginando que ainda estivesse à noite, mas ao olhar para a direção da porta, mesmo que embaçado, deu para perceber que era no mínimo de manhã. Procurei meu celular pela mesa de centro, e logo percebi que estava no meu bolso. Olhei as horas como quem não quer nada.
12h36.
Espreguicei-me, a fim de estralar minhas costas. O som da campainha ecoando pela casa e pela minha cabeça. Um pensamento vago, seguido de confusão. Quem estaria na porta da minha casa? Não podia ser Artie, ele não seria tão insensível, ou sensível demais ao ponto. Sentei no sofá coçando os olhos e escutei novamente o som da campainha. Ual, eu não queria nem levantar dali e ir até a porta! E melhor seria se eu realmente não tivesse ido.
O que você tá fazendo aqui?” Perguntei, querendo acreditar no que os meus olhos, mesmo que embaçados, estavam enxergando naquele momento.
 “Ah, eu senti sua falta...” Ele olhou para o chão enquanto dizia as poucas palavras que me atingiram de uma forma minuciosa e constrangedora.
 “A gente se viu ontem.” Tentei ser o mais indiferente que pude.
 “É eu sei.” Uma pausa. Pensamentos vazios e troca de olhares. Nossos olhares se fixaram e foi como se eu tivesse cedido a todas as suas graças novamente.
Quer entrar?” Me senti idiota por não tê-lo convidado antes.
Claro, obrigado!” Parecia que finalmente eu tinha entendido o que ele estava pensando, e, mesmo com uma aparência triste e um sorriso torto, ele entrou e se sentou no sofá laranja que meu pai tanto amava.
Jogamos conversa fora enquanto tomávamos uma Coca e comíamos uma pizza, quando Victor e sua mania de me afetar resolveram transparecer.
 “Alice, eu vou me mudar” Ele fez uma cara de triste, mas não entendi o porquê.
Nossa, que legal! Sua casa parece ótima, é por aqui em San Francisco mesmo?” Estava toda entusiasmada.
Vou pra Boston, passei em Harvard.” Ele fez uma cara de conformação e eu dei uma risada irônica. Aquela gargalhada que as pessoas costumam dar para esconder sentimentos totalmente opostos.
Ok. Agora você já pode parar de brincar com esse tipo de coisa.” Falei sério, olhando nos olhos dele, que pareciam um mar negro.
Os olhos dele se levantaram e, com um sorriso falso de ‘vai ficar tudo bem’ ele pegou na minha mão.
Vou amanhã de manhã, me desculpe por te dizer isso tão tarde, é porque fiquei sabendo ontem a noite.
Droga. Eu sempre tinha que ser a última a saber, mas pior que isso era não poder fazer nada para que ele ficasse. Ninguém recusaria uma vaga em Harvard por uma pessoa, a não ser que essa pessoa estivesse morrendo. Não que eu não estivesse morrendo (se é que já não estava morta) por dentro, mas não, ele não precisava saber disso.
O abracei, como se fosse a última vez, e não deixava de ser. Diria que foi o abraço mais intenso que eu já pude sentir. Uma troca de emoções e palavras que nunca foram ditas fez com que lágrimas saíssem dos meus olhos cheios de sentimentos distintos e até mesmo, desconhecidos. Mas foram poucas lágrimas, pois sempre tinha o orgulho que não deixava que nada disso viesse à tona.
Conversamos bem pouco e o levei até a porta.
Vou sentir sua falta...” Foi o máximo que pude extrair dessa mistura de saudade e raiva.
Eu também” Victor se aproximou e tocou meus lábios “Quem sabe o destino não cruza nossos caminhos novamente?” E se foi, andou pelas ruas já escuras da Califórnia em direção a sua moradia, que daqui a algum tempo teria se tornado antiga.
A única coisa que deixou foi algumas lembranças e a esperança de que um dia voltaríamos a se encontrar. Mas esperança foi algo que eu nunca tive muito.
E lá estava eu, Alice Kirtke, parada na porta da minha casa, sem Artie, apenas sentindo o rastro de perfume que Victor deixou. Talvez, agora nada mais me afetasse. Bastava seguir a vida que eu tanto sonhei, e meus sonhos não incluíam Artie ou Victor. Não mais.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Capítulo 26- Alice



Existia algo imperdível em Victor. Algo tão tentador, que eu nem saiba descrever, ou até mesmo sentir.
Esse negócio de estar dividida entre dois caras perfeitos estava sendo demais pra mim. Eu me sentia ridícula, e queria acabar logo com isso. Só não sabia como, e não saber resolver as coisas sempre me deixou, nem que fosse um pouco, com o orgulho ferido.
Artie, a gente pode voltar para o carro agora?” respondi demonstrando confusão na voz.
 “Mas nós não íamos voltar a pé?
 “Sim, mas... não faz o menor sentido ir a pé, quando que você tem um carro” E aquela famosa mania de ‘vomitar palavras’ havia se manifestado novamente.
 “Ah...” Ele foi seco, mas isso era o mínimo que podia ser.
 “E então?” Parei e esperei ele responder, esperando ser surpreendida por um ‘Ok, vou buscar o carro pra ir embora’.
 “Então espere aqui. Vou buscar o carro” Fiz cara de surpresa, logicamente. Mas um pedaço minúsculo do meu coração resolveu se partir antes que a voz da razão resolvesse dizer algo ao ver os olhos verdes de cristal dando a ultima olhada, como se soubesse de algo.
O esperei. Não por muito tempo, mesmo que tivesse parecido uma eternidade, porque quando sua cabeça está a mil, qualquer segundo parecem ser minutos de horas.
Ele parou o carro alguns metros distante de onde eu estava. Eu observava Artie e ele estava com a cabeça baixa, e os braços apoiados no volante do carro. Entrei no carro, e ele não ousou dizer qualquer coisa, ou fazer qualquer murmúrio até chegar à minha casa.
Antes de sair do carro, encostei totalmente no assento e respirei fundo.
 “Acho que nós temos que parar com isso.” Disse encarando o asfalto pelo retrovisor.
 “Com o que, exatamente?
 “De sair juntos, de viver situações que tenho certeza que você não gostaria
 “Porque você diz isso?
 “Porque ta na cara que eu não sou seu tipo, tá na cara que você não gosta de mim. Sei lá, eu só quero acabar logo com isso.”
Você é a única por quem eu senti algo de verdade, isso não ta na cara também?
 “Na verdade, não. Preciso ir, valeu pela carona”. Deu o tempo de um colocar a chave na maçaneta para ouvir o carro sair a toda velocidade, como se de fato, o carro pudesse expressar os sentimentos dele.
Era terrível pensar que os olhos verdes poderiam se afogar em lágrimas de arrependimento ou, pior ainda, de tristeza. Mas eu estava decidida. Estava decidida, mesmo que isso fosse me custar algo. E aparentemente, não custaria nada.
Ao entrar, ajudei meu pai nos afazeres de casa, coisa rápida e fácil.
Boa noite, filha! Obrigado por se esforçar hoje para me ajudar” Ele deu um sorriso torto e de leve, subiu para o seu quarto, morrendo de vontade de descansar o corpo, e principalmente os pensamentos. Nunca entendi porque o meu pai se impressionava no meu menor esforço, era, no mínimo, constrangedor. Para ele, claro.
Me larguei no sofá confortável, que não era fundo onde meu pai sempre sentava.
Os pensamentos vieram à tona. A cólera que eu sentia de mim mesma era profunda e cativante, como se não houvesse nenhum sentimento mais extremo e palpável.
As lágrimas queriam rolar pelo meu rosto, mas eu tinha descoberto que os muros emocionais estavam tão altos, que nem um dilúvio poderia ultrapassá-los. Nada que estava ao meu alcance poderia ser mais frio que tudo isso, nem o vento, nem a neve. Mesmo que estivesse bem próximo disso. Me sentia só, mas a companhia do meu cachorro seria perfeita, se eu tivesse um.
E no meio de raiva, arrependimento e gelados ventos interiores, Victor parecia a solução perfeita.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Capítulo 25- Alice



Odiava a sensação de estar dividida. De uma parte de mim estar no mundo de Artie, e outra estar no mundo de Victor. 
Mesmo que era por Artie os meus sentimentos mais sinceros, Victor conseguia me deixar pensando nele, nem que fosse por uma fração de tempo. Era, de longe, inevitável.
Porque Victor tinha que aparecer justo quando a minha vida estava 'resolvida?' 
Porque...
Porque sim.
Droga.
Saí apressada de onde eu estava conversando com Victor, sem me arrepender de palavra dita a ele. Orgulho. É, pode ser.
Vi que Artie estava parado perto de um poste de luz, prestando atenção em meus movimentos ligeiros, e talvez, até imaginando o que eu estava fazendo com Victor. Bem, ele só não imaginou como também perguntou.
"O que você estava fazendo lá com o Victor?" Senti as palavras chicoteando meu rosto e apertando meus pulmões.
"Trocando palavras" eu não diria que aquilo foi uma conversa "ele apareceu do nada, e eu não podia simplesmente ignorá-lo" É, não mesmo.
"Eu não confio nele, Alice" Os olhos verdes almejantes e delirantes se desviaram da direção dos meus.
"Nem em mim?" Coloquei a mão no queixo dele, deixando que a cabeça dele se apoiasse em meus dedos e fosse levantada lentamente pela força de minhas mãos.
"Confio em você" ele sorriu e me abraçou e a sensação de estar segura tomou conta de mim.
Nunca consegui entender o porque que as coisas aconteciam simplesmente para nos separar. Eu apenas gostava de imaginar que era porque realmente iria valer a pena.
"Vamos embora?" Ele sussurrou no meu ouvido. Em questão de segundos, observei o tempo e pensei que era uma ótima ideia.
"Vamos" Dei um sorriso que foi retribuído imediatamente.
Estávamos andando em direção ao estacionamento de mãos dadas e o perfume de Artie exalando em minhas narinas. "Espere aqui" Ele disse, e eu sem entender, assenti. Quando ele voltou, segurava a jaqueta dele, e a minha.
"Tome, você vai precisar" Disse arrumando a jaqueta no corpo.
"Vou?"
"Vai, a não ser que você queira ficar com frio o resto do caminho, porque vamos a pé" Lancei um olhar apreensivo.
"Mas é muito longe e..."
"Não tem problema, vai ser legal, você vai ver"
É, te digo que ele me convenceu e fomos andando. Era longe de fato, mas toda a distância se tornou imperceptível perto de Artie.
Estava frio e logicamente tinha várias pessoas nos cafés da cidade. Os braços de Artie estavam por cima dos meus ombros, e novamente o perfume dele vinha de encontro com meus pulmões, só que dessa vez misturado com cheiro de café. Mas nem os dois aromas que mais me encantam conseguiam tirar a imagem de Victor da minha cabeça. Ele parecia ter o dom de aparecer quando eu menos queria, seja pessoalmente ou apenas na minha mente.
"Olha, Alice, que casal mais bobo... Um fica sujando a ponta do nariz do outro" Artie apontava para um casal, aparentemente feliz, se sujando carinhosamente com a espuma do Capuccino. Eu dei uma olhadela rápida, não dando a mínima pros casais ali presentes, pois o conflito comigo mesma só aumentava a cada vez que o perfume de Artie me fazia fechar os olhos e repensar em minha situação.
Não sei de quem tenho mais raiva: de Artie por ser tão perfeito, Victor por ser tão surpreendente ou de mim, que não consegue deixar de ser atraída pelos dois. Eu sempre quis tudo muito definido na minha vida, com limites e consequências caso eu ultrapasse esses limites... escolhi Direito como curso justamente por isso, mas a vida parece querer me ensinar de que nem tudo é preto ou branco, luz ou trevas. Ela parece querer me mostrar que há mais dentro de mim do que eu mesma digo conhecer... há MENOS dentro de mim do que eu digo ter: menos auto-controle, por exemplo, porque se eu o tivesse não estaria pensando novamente em Victor e em como seria essa caminhada para casa se fosse ele ao invés de Artie.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Capítulo 24- Victor

Caminhava lentamente pela rua, que estava solitária e silenciosa num dia cinza com direito a neblina e vento gelado, e eu me perguntava se teria como tudo ficar mais perfeito. Naquele domingo, ao menos para mim, as horas se passavam lentamente, o que já era algo surpreendente. Mas, porque eu estava caminhando numa manhã de domingo mesmo? Seguindo minhas vontades? Só podia ser. Eu me sentia bem, mas esse sentimento era limitado ao pensar em Alice. Alice. Esse nome de novo na minha mente...
Encostado numa árvore, os pensamentos que eu evitava a muito tempo, vieram á tona. Ela e Artie, meus supostos sentimentos por ela, minha amizade com Artie. Não queria compreender tudo isso, era muito difícil, na verdade. Eu nunca achei que omitir tudo para Artie naquele dia no refeitório iria adiantar algo.
Não, não estava nada certo, e eu não devia ter ficado debaixo daquela árvore por tanto tempo.
Continuei caminhando com os últimos pensamentos vagos no meu subconsciente, querendo tomar algum rumo que fizesse tudo isso desaparecer.
Um parque, pensei.
Um parque de diversões, seria bom para extravasar. Chamar alguns amigos era legal, mas talvez eu pudesse ficar sozinho mesmo. Eu e meus sentimentos.
Eu tive que pegar um táxi para ir até lá, e me praguejei por não estar de carro quando a chuva fina começou.
Paguei o ingresso, entrei. Estava meio vazio, e depois eu reparei no tempo ruim que estava para ir num parque de diversões. Caminhei afim de encontrar algum brinquedo legal, mas o que me chamou atenção mesmo foi um jogo de armas. Incrível. Fiquei lá por quase uma hora, e ganhei tickets suficiente para trocar por qualquer coisa. Saí de lá e fui direto trocá-los. De longe eu já o avistava, e tinha umas três pessoas na fila mas eu ainda não enxergava os rostos delas.
Ando rápido, na esperança que ninguém entre na fila. Rápido. Rápido. Paro. Devagar. Paro novamente antes mesmo de chegar, dessa vez por um motivo surpreendente. Um rosto conhecido, um rosto magnificamente perfeito, o rosto de Alice.
Ela era a primeira da fila, estava debruçada no balcão, esperando o funcionário dar uma sacola meio grande pra ela. Eu a olhava um pouco distante, e talvez ela fosse a paisagem que eu mais gostava de apreciar. E a pergunta que eu me fazia no começo do dia foi respondida quando ela se virou e olhou diretamente para mim. Se tinha como algo ficar perfeito, Alice era o mais próximo disso.
Caminhei em sua direção, ela hesitou mas logo veio até mim também.
"Você por aqui..." sem abraços ou beijos dela, apenas um sorriso forçado para demonstrar simpatia.
"É, não imaginava te encontrar aqui"
"Nem eu, na verdade"
"Hum, e como você tá?"
"Muito bem. Estou em casa com meu pai, finalmente" E ela sorriu, como quem não quer nada.
"Fico feliz por você!"
"Obrigado. E você está bem?"
"Na medida do possível" Encarei os olhos tão nítidos de Alice, e eu me indagava sobre o que se passava na cabeça dela.  "Eu sinto a sua falta" Eu disse, sem querer.
"Oh, Victor. Eu também sinto sua falta... Sinto falta de conversar todos os dias e sobre tudo com você, da nossa amizade... M-mas não do que criamos depois disso." Direta. Essas palavras doeram, foram certeiras como uma flecha.
"Não sei... Não sei se posso entender isso agora."
"Tente. Porque agora estou com Artie e estou muito bem ao lado dele" E como se já não bastasse, ela continuou. "Desculpe,  tenho que ir." Seguido de um aceno de mão, ela se virou e foi andando e andando, até eu enxergá-la longe nos braços de Artie.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Capítulo 24- Artie Lewis

Eu estava feliz por Alice. Ela merecia ter a família do lado dela. Mas já tinha se passado dois dias que eu não a via e só depois da quinta mensagem, ela me ligou.
"Oi, desculpa não ligar antes..."
"Aconteceu alguma coisa? Fiquei preocupado"
"Não, não aconteceu nada demais, aliás, foi uma chatice não conseguir te ligar"
"Então, porque não me ligou?"
"Meu pai... Eu quis separar esse tempinho pra dar atenção pra ele e garantir que ele não faça nenhuma merda por aí" Nós rimos juntos.
"Ah sim.. E você aceitaria se eu te chamasse pra sair hoje?"
"Hum... Pra onde?"
"Ah, qualquer lugar, se bem que não seria nada mal ir pra um parque de diversões hoje, né..."
"Nesse frio?" Ela soltou uma breve gargalhada. "É realmente uma boa ideia."
"Você fala sério?"
"É, poder ser." Pensei brevemente em como o amor de família pode mudar alguém. Ainda mais alguém como Alice.
Fechei os olhos ao encerrar a chamada, lembrando de como ela era perfeita para mim e sua sinceridade me deixava cada vez mais próximo dela.
Estava um dia frio, de fato. Não era bem o meu clima favorito, mas era o dela, e por isso, achei que seria perfeito.
Cheguei na casa dela depois de algumas horas. Eu buzinei e ela veio até o carro. "Wow, ela está linda" pensei.
E realmente ficava linda de jeans, com uma blusa que tinha o símbolo do U2, uma camisa azul escura e logo por cima, uma jaqueta de couro e com os cabelos presos num elástico azul claro de forma frouxa, eu não pude deixar de notar mais uma vez em como eu fui me apaixonar tanto por ela e em como ela era perfeitamente diferente das outras. Se tudo isso não fosse dar certo, eu tinha a certeza que eu a desejaria até o último minuto da minha vida, mesmo que o rosto dela virasse apenas vestígios em minha mente depois de um tempo.
Ela entrou no carro, e logo seu perfume doce logo encheu meus pulmões.
"Oi Artie" Ela disse sorridente, e logo me deu um beijo rápido antes que eu falasse algo. Depois dei partida que foi logo seguida de algum período de silêncio, um silêncio que quase dava para ouvir nossos pensamentos se atropelando com o barulho matinal de domingo.
"Achei que você não viria..." Eu disse sem desviar os olhos do cruzamento.
"Claro que eu viria." Não soou tão convincente, e talvez, ela percebeu  isso. Ela colocou a mão no meu joelho enquanto mexia com a outra no iPod.
O silêncio dominou todo o espaço novamente quando ela terminou de contar, no detalhe, tudo dos seus dias. O parque de diversões não era tão perto e, a única maneira de quebrar o silêncio foi colocando um CD do Aerosmith, fazendo com que nós dois cantássemos empolgadamente enquanto ouvíamos Jaded, e caímos na gargalhada logo depois.
Quinze minutos bastaram para eu poder estacionar em frente ao parque e sairmos de mãos dadas. Lá estava levemente cheio, já que era domingo e estava um tempo nada favorável para famílias se divertirem como se realmente estivesse Sol.
Algumas das barraquinhas de tickets estavam abertas, e eram as mais divertidas, e Alice me surpreendera mais uma vez com sua mira impecável. Ela ganhou uma bola de beisebol simples, assinou e me deu, a qual eu guardo até hoje.
Passamos por uma montanha russa, e eu desejei, quase de súbito, estar lá sentindo o vento forte rebater no meu rosto. Maldita paixão por coisas radicais.
"Ei, em qual barraca vamos agora?" Ela perguntou se debruçando no meu ombro direito, e era oportunidade perfeita para irmos onde eu tanto queria.
"Hum... Acho que já temos bastante tickets. Que tal irmos ali?" E apontei para a montanha russa. Alice olhou e fez uma cara de reprovação.
"A-HÁ, ali eu não vou jamais, se quiser ir sozinho, eu fico aqui para trocar os tickets" Ela estava convicta.
"Sério?" Sorri e ela assentiu.  "Está bem, me espere que talvez eu não demore."
"Não vou ligar se demorar" Ela me deu um beijo no rosto. "Vá e se divirta, vou ficar olhando você fazer aquilo que eu não tenho um pingo de coragem...."
Pude ir tranquilo, e de qualquer lugar que eu olhasse, eu podia vê-la sentada no banco, me observando.
Depois de uma fração de tempo, finalmente me sentei no carrinho e apertei meus cintos, sentia a adrenalina correr pelo meu corpo. Olhei para o lado para ver se encontrava Alice. Ela estava lá ao longe no lugar que trocava tickets. E isso deveria ser bom se ela não estivesse na companhia de Victor.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Capítulo 23- Alice

Eu estava batendo as unhas, já roídas, na mesa de jantar, notavelmente ansiosa pela chegada dos dois. Eu não sabia como iria reagir ao olhar para meu pai, o que me deixava num desespero mental. O tempo demorava pra passar, parecia que eu nunca tinha esperado tanto na minha vida. Até que lembrei de um jogo de guerra, que ainda estava lá, intacto, me fazendo lembrar dos dias em que eu e meu irmão se divertia muito jogando-o. Me sentei de pernas cruzadas e joguei até a hora que escutei um barulho de carro estacionando. Eu podia muito bem ir abrir a porta e ser muito simpática e receptiva. O problema era não saber se devia mesmo fazer isso ou não. E escolher entre fazer ou não fazer, acabei desligando o vídeo game e sentei no sofá com as pernas encolhidas e cara de nada, esperando que um dos dois abrissem a porta. E depois de alguns segundos, foi feito o esperado. Meu pai estava parado na porta, de aparência saudável e eu não pude deixar de sorrir,mesmo contra minha vontade, vendo meu pai fazer o mesmo. Minha felicidade estava maior que eu, haviam dias que eu não parecia estar na mesma melancolia de sempre. Meu pai ficou estático na porta a poucos metros de mim, segurando a maçaneta com uma mão e a outra, solta. Meu irmão chegou logo atrás e ao ver papai parado olhou para mim e pode enxergar meu sorriso e entender tudo o que se passava em minha mente, e Matt deixou que algumas lágrimas contáveis rolassem de seus olhos levemente esverdeados para sua face, e em seguida repousou uma das mãos sobre o ombro de papai, pedindo para que ele entrasse.
Uma coisa é certa: Não importa as vezes em que seu pai te machucar, você vai dizer que o odeia quando, na verdade, o mais profundo da sua alma grita somente por amor.
E fiz o que uma filha profundamente apaixonada faria. Percorri os poucos metros de distância ainda existentes entre nós e o abracei forte. Para minha parcial infelicidade, eu tinha exatamente a mesma personalidade do meu pai. Eu sentia demais e demonstrava de menos,e por isso não trocamos palavras sequer. Tenho certeza que ele estava pensando em falar alguma coisa, assim como eu. Mas mesmo não dizendo nada, esse dia foi marcante para mim, trazendo nostalgia nos dias de hoje.
"James, sente-se aqui enquanto eu e o Matt preparamos a mesa." Peguei na mão dele e o acompanhei até a sala de estar, e fui encontrar meu irmão na cozinha, que me puxou de canto e disse num sussurro, não percebendo que a cozinha ficava numa distancia grande da sala.
"Ei, você podia chamar ele de pai a partir de agora?!" deu enfase no 'pai'.
"Vou tentar. Não é tão fácil assim ta?" disse como se você óbvio.
Matt só assentiu com uma cara meio repreensiva e fomos arrumar a mesa.
Passaram se ali alguns minutos, e por fim estávamos reunidos, finalmente, como família. Meu irmão enchia papai de perguntas e curiosidades. Papai comentou de como foram os processos de recuperação, o que me prendia pelo menos um pouco no que ele dizia. E conversamos por horas.
"Maninha, conta pra ele do seu namorado...." Arqueou as sobrancelhas, na esperança que eu contasse. Contar coisas de irmã mais velha para o pai só pode ser coisa de irmãos mais novos.
"Ah não... Não é nada demais, hum p-pai" Disse olhando pro prato. Não me sentia com liberdade de falar disso com ele, muito menos para chamá-lo de pai, e então escondi meu rosto no meio dos meus cabelos rebeldes. Era óbvio que eu precisava me acostumar com isso, o quanto antes.
"Tudo bem, apenas traga-o um dia para um jantar aqui em casa." E por um instante a voz de James ecoava pela minha mente no mesmo tom compassivo.
"Wow, muito boa a ideia pai" Matt disse com uma das expressões convincentes dele. Eu dei de ombros.
"Bem, vou pro meu quarto arrumar as minhas coisas. Não vou sair de lá, caso precisem de mim" Me retirei da mesa de forma prática, recebendo os olhares vagos sobre mim. Não importava o tanto de informações compartilhadas juntos, como família, não teríamos aquela intimidade. Era triste por um lado, mas eu não ligava muito.
Estava arrumando minhas coisas, quando dei conta de que talvez os dias seriam mais difíceis se eu não fosse ver Artie sempre, já que eu teria que dar atenção pro meu pai agora. Era um momento instável, eu tentava por isso com convicção na minha cabeça. Mas, o que estava acontecendo comigo? Como Artie Lewis pode me mudar tanto?
Era impressionante, e eu sorria a toa mesmo, só por lembrar que tudo corria bem. Eram expectativas que iam além de tudo o que eu planejei.



terça-feira, 6 de setembro de 2011

Capítulo 22- Alice

Dez e trinta e cinco, manhã de domingo. Acordei num pulo ao ver a nota com alarme do meu celular, me lembrando que eu teria um almoço em família ao meio dia. Os últimos dias em que eu estava com Artie me fizeram esquecer disso completamente. Cocei os olhos e coloquei umas pantufas qualquer. Vesti a primeira calça jeans que vi e que eu tivesse certeza de que cobrissem minhas meias coloridas, peguei um suéter vermelho e um casaco preto pra por em cima, já estava tudo tão corrido que eu não queria nem pensar em sair de outro jeito.
Nesse meio tempo, uma mensagem de Artie chegou. "Acho que te acordei. Não paro de lembrar como você fica linda com cara de sono. Vai dar tudo certo hoje, te amo." Foi tranquilizador e por um momento, me sentei na cama e recordei os últimos momentos com Artie, lembrando da hora que adormecemos no sofá e quando eu acordei, os olhos verdes estavam meio fechados, mas observadores, e eu não pude evitar de me deixar levar pelo sentimento estúpido de me apaixonar um pouco mais.
Comecei a arrumar minhas malas logo em seguida, respirando fundo e pensando em como poucos meses, ou até dias podem mudar muita coisa. Era uma sensação estranha voltar para casa depois de tudo o que aconteceu, e mais estranho ainda era ver que eu tinha forças para isso.
Depois, desci e tomei um breve café da manhã com Laura e aproveitei para conversar bastante com ela. Olhei no relógio, e já eram quase meio dia. Comecei a suar frio, me despedi de Laura e com uma mala na mão e outra nas costas, fui desembaraçando meu cabelo com os dedos mesmo, para estar no mínimo apresentável aos meus restantes familiares. Peguei um táxi até a minha casa, e quando eu cheguei meu irmão já estava para entrar no carro.
"Ei !" Gritei.
"Ah maninha, que bom que você veio" Ele estava com um sorriso enorme no rosto. Eu corri e fui abraçá-lo, como nunca fiz antes.
"Onde você ta indo?" me apoiei no carro.
" Buscar o pai." E o sorriso dele ainda estava lá, como se fosse extremamente banal sorrir assim.
"Ta. Então... vou ficar aqui e arrumar as coisas" sorri de leve.
"Não precisa, eu já arrumei tudo mas... Acho melhor você ir se arrumar" Dando ênfase no 'você', ele brincou com a minha aparência desajeitada de sempre.
"Hum, engraçadinho" Rimos juntos depois de anos.
"Vou indo, tchau" ele entrou no carro e saiu 'queimando os pneus'. E eu entrei em casa. Acho que eu estava apreciando esse novo clima familiar. O cheiro de casa aconchegante estava no ar e com esse cheiro enchendo meus pulmões, me larguei no sofá com um sorriso convincente no rosto. E essa era minha realidade agora.