Eu estava batendo as unhas, já roídas, na mesa de jantar, notavelmente ansiosa pela chegada dos dois. Eu não sabia como iria reagir ao olhar para meu pai, o que me deixava num desespero mental. O tempo demorava pra passar, parecia que eu nunca tinha esperado tanto na minha vida. Até que lembrei de um jogo de guerra, que ainda estava lá, intacto, me fazendo lembrar dos dias em que eu e meu irmão se divertia muito jogando-o. Me sentei de pernas cruzadas e joguei até a hora que escutei um barulho de carro estacionando. Eu podia muito bem ir abrir a porta e ser muito simpática e receptiva. O problema era não saber se devia mesmo fazer isso ou não. E escolher entre fazer ou não fazer, acabei desligando o vídeo game e sentei no sofá com as pernas encolhidas e cara de nada, esperando que um dos dois abrissem a porta. E depois de alguns segundos, foi feito o esperado. Meu pai estava parado na porta, de aparência saudável e eu não pude deixar de sorrir,mesmo contra minha vontade, vendo meu pai fazer o mesmo. Minha felicidade estava maior que eu, haviam dias que eu não parecia estar na mesma melancolia de sempre. Meu pai ficou estático na porta a poucos metros de mim, segurando a maçaneta com uma mão e a outra, solta. Meu irmão chegou logo atrás e ao ver papai parado olhou para mim e pode enxergar meu sorriso e entender tudo o que se passava em minha mente, e Matt deixou que algumas lágrimas contáveis rolassem de seus olhos levemente esverdeados para sua face, e em seguida repousou uma das mãos sobre o ombro de papai, pedindo para que ele entrasse.
Uma coisa é certa: Não importa as vezes em que seu pai te machucar, você vai dizer que o odeia quando, na verdade, o mais profundo da sua alma grita somente por amor.
E fiz o que uma filha profundamente apaixonada faria. Percorri os poucos metros de distância ainda existentes entre nós e o abracei forte. Para minha parcial infelicidade, eu tinha exatamente a mesma personalidade do meu pai. Eu sentia demais e demonstrava de menos,e por isso não trocamos palavras sequer. Tenho certeza que ele estava pensando em falar alguma coisa, assim como eu. Mas mesmo não dizendo nada, esse dia foi marcante para mim, trazendo nostalgia nos dias de hoje.
"James, sente-se aqui enquanto eu e o Matt preparamos a mesa." Peguei na mão dele e o acompanhei até a sala de estar, e fui encontrar meu irmão na cozinha, que me puxou de canto e disse num sussurro, não percebendo que a cozinha ficava numa distancia grande da sala.
"Ei, você podia chamar ele de pai a partir de agora?!" deu enfase no 'pai'.
"Vou tentar. Não é tão fácil assim ta?" disse como se você óbvio.
Matt só assentiu com uma cara meio repreensiva e fomos arrumar a mesa.
Passaram se ali alguns minutos, e por fim estávamos reunidos, finalmente, como família. Meu irmão enchia papai de perguntas e curiosidades. Papai comentou de como foram os processos de recuperação, o que me prendia pelo menos um pouco no que ele dizia. E conversamos por horas.
"Maninha, conta pra ele do seu namorado...." Arqueou as sobrancelhas, na esperança que eu contasse. Contar coisas de irmã mais velha para o pai só pode ser coisa de irmãos mais novos.
"Ah não... Não é nada demais, hum p-pai" Disse olhando pro prato. Não me sentia com liberdade de falar disso com ele, muito menos para chamá-lo de pai, e então escondi meu rosto no meio dos meus cabelos rebeldes. Era óbvio que eu precisava me acostumar com isso, o quanto antes.
"Tudo bem, apenas traga-o um dia para um jantar aqui em casa." E por um instante a voz de James ecoava pela minha mente no mesmo tom compassivo.
"Wow, muito boa a ideia pai" Matt disse com uma das expressões convincentes dele. Eu dei de ombros.
"Bem, vou pro meu quarto arrumar as minhas coisas. Não vou sair de lá, caso precisem de mim" Me retirei da mesa de forma prática, recebendo os olhares vagos sobre mim. Não importava o tanto de informações compartilhadas juntos, como família, não teríamos aquela intimidade. Era triste por um lado, mas eu não ligava muito.
Estava arrumando minhas coisas, quando dei conta de que talvez os dias seriam mais difíceis se eu não fosse ver Artie sempre, já que eu teria que dar atenção pro meu pai agora. Era um momento instável, eu tentava por isso com convicção na minha cabeça. Mas, o que estava acontecendo comigo? Como Artie Lewis pode me mudar tanto?
Era impressionante, e eu sorria a toa mesmo, só por lembrar que tudo corria bem. Eram expectativas que iam além de tudo o que eu planejei.
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
terça-feira, 6 de setembro de 2011
Capítulo 22- Alice
Dez e trinta e cinco, manhã de domingo. Acordei num pulo ao ver a nota com alarme do meu celular, me lembrando que eu teria um almoço em família ao meio dia. Os últimos dias em que eu estava com Artie me fizeram esquecer disso completamente. Cocei os olhos e coloquei umas pantufas qualquer. Vesti a primeira calça jeans que vi e que eu tivesse certeza de que cobrissem minhas meias coloridas, peguei um suéter vermelho e um casaco preto pra por em cima, já estava tudo tão corrido que eu não queria nem pensar em sair de outro jeito.
Nesse meio tempo, uma mensagem de Artie chegou. "Acho que te acordei. Não paro de lembrar como você fica linda com cara de sono. Vai dar tudo certo hoje, te amo." Foi tranquilizador e por um momento, me sentei na cama e recordei os últimos momentos com Artie, lembrando da hora que adormecemos no sofá e quando eu acordei, os olhos verdes estavam meio fechados, mas observadores, e eu não pude evitar de me deixar levar pelo sentimento estúpido de me apaixonar um pouco mais.
Comecei a arrumar minhas malas logo em seguida, respirando fundo e pensando em como poucos meses, ou até dias podem mudar muita coisa. Era uma sensação estranha voltar para casa depois de tudo o que aconteceu, e mais estranho ainda era ver que eu tinha forças para isso.
Depois, desci e tomei um breve café da manhã com Laura e aproveitei para conversar bastante com ela. Olhei no relógio, e já eram quase meio dia. Comecei a suar frio, me despedi de Laura e com uma mala na mão e outra nas costas, fui desembaraçando meu cabelo com os dedos mesmo, para estar no mínimo apresentável aos meus restantes familiares. Peguei um táxi até a minha casa, e quando eu cheguei meu irmão já estava para entrar no carro.
"Ei !" Gritei.
"Ah maninha, que bom que você veio" Ele estava com um sorriso enorme no rosto. Eu corri e fui abraçá-lo, como nunca fiz antes.
"Onde você ta indo?" me apoiei no carro.
" Buscar o pai." E o sorriso dele ainda estava lá, como se fosse extremamente banal sorrir assim.
"Ta. Então... vou ficar aqui e arrumar as coisas" sorri de leve.
"Não precisa, eu já arrumei tudo mas... Acho melhor você ir se arrumar" Dando ênfase no 'você', ele brincou com a minha aparência desajeitada de sempre.
"Hum, engraçadinho" Rimos juntos depois de anos.
"Vou indo, tchau" ele entrou no carro e saiu 'queimando os pneus'. E eu entrei em casa. Acho que eu estava apreciando esse novo clima familiar. O cheiro de casa aconchegante estava no ar e com esse cheiro enchendo meus pulmões, me larguei no sofá com um sorriso convincente no rosto. E essa era minha realidade agora.
Nesse meio tempo, uma mensagem de Artie chegou. "Acho que te acordei. Não paro de lembrar como você fica linda com cara de sono. Vai dar tudo certo hoje, te amo." Foi tranquilizador e por um momento, me sentei na cama e recordei os últimos momentos com Artie, lembrando da hora que adormecemos no sofá e quando eu acordei, os olhos verdes estavam meio fechados, mas observadores, e eu não pude evitar de me deixar levar pelo sentimento estúpido de me apaixonar um pouco mais.
Comecei a arrumar minhas malas logo em seguida, respirando fundo e pensando em como poucos meses, ou até dias podem mudar muita coisa. Era uma sensação estranha voltar para casa depois de tudo o que aconteceu, e mais estranho ainda era ver que eu tinha forças para isso.
Depois, desci e tomei um breve café da manhã com Laura e aproveitei para conversar bastante com ela. Olhei no relógio, e já eram quase meio dia. Comecei a suar frio, me despedi de Laura e com uma mala na mão e outra nas costas, fui desembaraçando meu cabelo com os dedos mesmo, para estar no mínimo apresentável aos meus restantes familiares. Peguei um táxi até a minha casa, e quando eu cheguei meu irmão já estava para entrar no carro.
"Ei !" Gritei.
"Ah maninha, que bom que você veio" Ele estava com um sorriso enorme no rosto. Eu corri e fui abraçá-lo, como nunca fiz antes.
"Onde você ta indo?" me apoiei no carro.
" Buscar o pai." E o sorriso dele ainda estava lá, como se fosse extremamente banal sorrir assim.
"Ta. Então... vou ficar aqui e arrumar as coisas" sorri de leve.
"Não precisa, eu já arrumei tudo mas... Acho melhor você ir se arrumar" Dando ênfase no 'você', ele brincou com a minha aparência desajeitada de sempre.
"Hum, engraçadinho" Rimos juntos depois de anos.
"Vou indo, tchau" ele entrou no carro e saiu 'queimando os pneus'. E eu entrei em casa. Acho que eu estava apreciando esse novo clima familiar. O cheiro de casa aconchegante estava no ar e com esse cheiro enchendo meus pulmões, me larguei no sofá com um sorriso convincente no rosto. E essa era minha realidade agora.
sábado, 3 de setembro de 2011
Capítulo 21- Alice
"O que foi dessa vez?'
"Não sabia que você conhecia o Victor" Evitei olhá-lo ao dizer essa frase. Artie riu.
"Nossa, a gente se conhece a uns 8 anos, desde a sexta série. Já faz muito tempo..."
"Faz muito tempo mesmo... Mas ele nunca me falou que te conhecia" Tomei de uma vez a coca que estava no meu copo, evitando engolir seco, literalmente.
"Ele também nunca me falou de você" nos olhamos estranho e consequentemente ficamos muito perto um do outro, fazendo com que toda essa conversa nunca tivesse existido parecendo que eu estava próxima daqueles olhos verdes nítidos e secretos desde o primeiro momento.
"Essa conversa podia ficar para outra hora, né?" ele finalizou mordendo uma parte do lábio inferior e sorrindo. Eu assenti soltando um riso nasal. Nossas mãos se encostaram, e com um sorriso no rosto dos dois, nos beijamos depois de tanto tempo, evitando pensar nos meses em que não nos falamos e como Victor interferiu nisso de uma forma bem individual. E foi surpreendente, como se eu nunca tivesse feito isso antes, dando aquela emoção de primeira vez. Cada vez mais era a certeza que Artie não tinha nada a ver comigo e essa era a melhor parte. A parte em que eu me sentia feliz, mesmo com alguém tão oposto. Eu não entendia o motivo de eu estar indiretamente com Artie, era, no mínimo, curioso.
Ficamos conversando sobre várias coisas (exceto sobre Victor e os meses que ficamos distantes) brincamos de fazer caras e bocas enquanto estávamos debaixo de um cobertor e tudo o que me deixava muito feliz. Ligamos o videogame de Laura e jogamos todos os jogos que ela tinha, até os mais bobos como o de vestir Barbies.
"Essa roupa não combina com essa Barbie loira" Artie disse, trocando um blazer preto por uma micro-blusinha rosa pink. Eu olhei para ele com certa curiosidade, segurando o riso.
"e a micro-blusinha rosa combina?" Ele me encarou como se fosse a coisa mais normal do mundo e eu dei uma trombada nele. Ainda estávamos no sofá laranja de Laura, com o cobertor jogado de qualquer forma sobre nossas pernas e eu me distrai observando-o trocar a roupa das bonecas. Ele tinha um vício de morder o canto da boca enquanto jogava e eu achava isso fofo... era estranho eu achar algo fofo, mas as coisas com Artie eram assim: ele me levava a pensar e agir de formas como eu nunca imaginava nem em meus delirantes sonhos românticos.
Não... Artie superava qualquer expectativa de qualquer romance que eu jamais pudesse imaginar. E ele parecia não se esforçar para isso, era natural, improvisado e eu me pegava adorando não saber o que aconteceria depois. Desde que Artie estivesse comigo no próximo momento, eu estaria feliz.
"Sua boneca está muito elegante" Ele comentou e eu saí do meu mundo dos sonhos para encontrar seu sorriso e aqueles olhos verdes me encarando. "Ah, eu nem mudei muito a roupa padrão do jogo" Era verdade: eu mal tinha começado a jogar quando me perdi pensando nele. Com alguns movimentos rápidos no controle, minha Barbie passou de executiva a rockstar. "Você é boa em todos os jogos?" Ele perguntou assustado com a rapidez com que eu mexia no controle. "Ah, alguns..." Eu evitei tirar os olhos da tela, mas percebi que Artie tinha deixado o controle no colo e podia sentir seus olhos analisando cada movimento meu. Ele recostou no sofá e estendeu o braço o suficiente para alcançar as pontas do meu cabelo ainda bagunçado. Sem perceber, fui me deixando levar pelo toque de Artie e logo estava recostada nele, o braço dele envolva do meu pescoço ainda brincando com as pontas do meu cabelo. Eu encolhi as pernas para caber no sofá e ajeitei o cobertor para cobrir os dois.
Foi bom curtir a presença dele. E agora eu teria descoberto o motivo de eu estar bem logo de manhã: minha família e meu relacionamento com Artie se reconstruindo. Eu nem podia imaginar como tudo corria bem.
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