Dez e trinta e cinco, manhã de domingo. Acordei num pulo ao ver a nota com alarme do meu celular, me lembrando que eu teria um almoço em família ao meio dia. Os últimos dias em que eu estava com Artie me fizeram esquecer disso completamente. Cocei os olhos e coloquei umas pantufas qualquer. Vesti a primeira calça jeans que vi e que eu tivesse certeza de que cobrissem minhas meias coloridas, peguei um suéter vermelho e um casaco preto pra por em cima, já estava tudo tão corrido que eu não queria nem pensar em sair de outro jeito.
Nesse meio tempo, uma mensagem de Artie chegou. "Acho que te acordei. Não paro de lembrar como você fica linda com cara de sono. Vai dar tudo certo hoje, te amo." Foi tranquilizador e por um momento, me sentei na cama e recordei os últimos momentos com Artie, lembrando da hora que adormecemos no sofá e quando eu acordei, os olhos verdes estavam meio fechados, mas observadores, e eu não pude evitar de me deixar levar pelo sentimento estúpido de me apaixonar um pouco mais.
Comecei a arrumar minhas malas logo em seguida, respirando fundo e pensando em como poucos meses, ou até dias podem mudar muita coisa. Era uma sensação estranha voltar para casa depois de tudo o que aconteceu, e mais estranho ainda era ver que eu tinha forças para isso.
Depois, desci e tomei um breve café da manhã com Laura e aproveitei para conversar bastante com ela. Olhei no relógio, e já eram quase meio dia. Comecei a suar frio, me despedi de Laura e com uma mala na mão e outra nas costas, fui desembaraçando meu cabelo com os dedos mesmo, para estar no mínimo apresentável aos meus restantes familiares. Peguei um táxi até a minha casa, e quando eu cheguei meu irmão já estava para entrar no carro.
"Ei !" Gritei.
"Ah maninha, que bom que você veio" Ele estava com um sorriso enorme no rosto. Eu corri e fui abraçá-lo, como nunca fiz antes.
"Onde você ta indo?" me apoiei no carro.
" Buscar o pai." E o sorriso dele ainda estava lá, como se fosse extremamente banal sorrir assim.
"Ta. Então... vou ficar aqui e arrumar as coisas" sorri de leve.
"Não precisa, eu já arrumei tudo mas... Acho melhor você ir se arrumar" Dando ênfase no 'você', ele brincou com a minha aparência desajeitada de sempre.
"Hum, engraçadinho" Rimos juntos depois de anos.
"Vou indo, tchau" ele entrou no carro e saiu 'queimando os pneus'. E eu entrei em casa. Acho que eu estava apreciando esse novo clima familiar. O cheiro de casa aconchegante estava no ar e com esse cheiro enchendo meus pulmões, me larguei no sofá com um sorriso convincente no rosto. E essa era minha realidade agora.

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