quarta-feira, 8 de junho de 2011

Capitulo 11- Alice

Naquela noite eu dormi. Apenas dormi. Sem sonhar e, pelo visto, nem ousei a mexer um músculo do meu magro corpo. Eu dormi pensando que talvez todos os meus sonhos noturnos, aqueles fatos que ficam no nosso subconsciente e viram psicologicamente um sonho quando apenas fechamos os olhos e continuamos com nossa respiração ofegante (às vezes, eu sonhava tão alto que eu podia rir ou falar tão alto, que todos ouviam) virariam pesadelos, aqueles medos que ficam empoeirados dentro de nós e que ao fechar os olhos, sua respiração quase não sai e seu coração bate tão rápido que cansa, que as vezes, até suamos, porque na verdade, os medos se tornam realidade na nossa mente oculta, os medos tomam vida vida bem atrás de nossas pálpebras, o medo é assim: quando menos se espera, ele esta lá, vivo na sua mente. E tudo isso aconteceria comigo, ao pôr da lua.
Fiquei uma semana inteira sem ir na faculdade, sem sair desnecessariamente da casa de Laura. Aquela semana foi pensante, um tanto reflexiva sobre o conceito chamado família. Uma coisa que eu já andei perdendo há dois anos atrás, quando o amor daquela casa foi levado para longe do mundo natural, para longe de todos, sem mais, nem menos. Se eu não dançasse ballet, se eu não corresse atrás do meu sonho, eu teria uma mãe, eu teria o amor e o equilíbrio de casa, eu teria uma família. Eu abriria mão de um sonho, para ter minha mãe, para ter uma família construída e unida. Se eu soubesse que o acidente iria acontecer com mamãe, eu teria faltado no festival. Mas a vida não avisa quando trás novidade, seja ela boa ou ruim. E com isso, todos nós estamos lidando, desde a hora em que somos chamados de puros, de prontos para nascer. Mas nunca fomos prontos. Nenhum ser vivente dessa Terra nasce pronto para sempre receber surpresas boas ou ruins, para acordar um dia e mesmo com as coisas planejadas, sempre ter algo surpreendente.
Minha caverna interior estava confortável, estava quente e apesar do calor, eu gostava disso. E mesmo estando escuro, eu podia ver algumas estrelas. Poucas. Mas eram o suficiente para eu chamar de "pontos de esperança".
Tive que sair do meu conforto na  casa de Laura e voltar aos estudos na semana seguinte. Quando voltei estavam todos já sabendo fazendo comentários aleatórios. Nunca direcionado para mim, ficaram somente nas indiretas. Estava desconfortável, nunca poderia acreditar que eu seria alvo de fofocas. E não vou culpar Laura, porque ela era a única que sabia e com certeza contou a alguém que tinha aquele senso de curiosidade e disse dos meus problemas para todos. Acredito que foi por falta do que fazer. Mas, se não for, prefiro acreditar que foi realmente por falta do que fazer. Por mais que eu ache estranho esse lance de ser humano, não gosto de pensar que esta sempre nítido o lado ruim das pessoas.
Prefiro ficar sozinha nos intervalos. Só ficava junto com alguém quando eu ia embora. E esse alguém era Laura, para variar.
O tempo não estava nada quente em nenhum período de Março. Estava tudo tão frio, congelante e congestionante que eu já podia sentir o cheiro da neve. Eu gostava mais do frio. Tinha tudo a ver com meu estado emocional: congelando.
Eu passei o dia seguinte sem ninguém, isso inclui Laura. Ela ficou doente por causa do ar gelado e seco que vinha de encontro a nossos rostos. Então, fique sozinha, me afastei de todos. Mas não faria tanta diferença assim. Nada mudaria, nada importava. Afinal, nada importa quando você precisa estar sozinha, mesmo sabendo que precisa de ajuda. Eu escolhi isso. A solidão teria se tornado minha melhor amiga, havia um bom tempo.

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