quinta-feira, 2 de junho de 2011

Capitulo 10- Alice

Eu me sentia a vontade com Laura, eu podia ser eu mesma com todos os defeitos e as poucas qualidades e ela me ouviria e me compreenderia mesmo assim. E eu gosto de  ressaltar que ela era uma pessoa fantastica. Ela me entendeia apenas pelo olhar. E me passava uma confiança inexplicavel. Por ter essa confiança nela, eu falei de tudo com ela, nós conversamos bastante, mesmo eu sendo a ouvinte na maiori das vezes.
 Depois de horas de papo jogado fora, eu fui para casa, a pé mesmo com meu all star velho e pensamentos recentes. Jurava que naquela noite, durante a caminhada até em casa, eu podia tirar meus pés do chão de tao alto que eu sonhava. Pode parecer estranho eu dizer ser o que eu sou enquanto vou longe de tanto sonhar. Mas é que com o Artie eu me sentia bem. Eu me sentia confortada, mas não exclusiva. É verdade que eu não estava com ele, mas é como se eu estivesse de alguma forma. Insana. Patética. Se bem que ja seria um bom começo, pois as pessoas são assim: insanas e pateticas. Um tanto estranhas, digo.
 Sinceramente, eu não queria estar em casa naquela noite. Naquela noite em que o alcool entrou em minha casa e destruiu o pouco que sobrava, do que eu chamava de lar, de familia e o pouco que eu tinha de conforto e, digamos, sentimento. Sabe o que é ter um pai que, por conta de uma perda, se alcoliza para tentar superar isso ? Sabe o quão dificil é perder uma mãe da noite pro dia, sem mais nem menos ? Sabe o que é ter um irmão ausente, que mesmo voce precisando ele nao vai poder estar com voce ? Sim, são coisas horriveis, coisas que eu passei. Coisas que ainda não desgrudaram do meu presente, e nem do meu futuro. E agora, sabe o que é estar a menos de um passo do que dizem ser uma pessoa fria ?
Eu só pude chorar e gritar. Chorar mais do que meus olhos poderiam suportar. Gritar mais do que minhas cordas vocais poderiam aguentar.
Lembro de me ver sentada no chão, ouvindo a voz do meu irmão (que estava lá, por incrivel que pareça) tentando socorrer aquele humano que eu podia chamar de pai, que por sinal, estava aos gemidos, gemidos que eu desejei até hoje, nunca ter escutado.
 Nem Artie, seus olhos e toda a sua sinceridade poderiam me tirar dessa caverna interior, desse buraco que eu mesma cavei, para me esconder da vergonha e do medo. Não tinha como nao ter mais receio das pessoas depois disso, nao tinha como confiar em alguem de certo modo. Talvez, isso me deixaria melhor, mais forte. Mas essa era a parte boa, a parte inexistente na minha vida.
"Ei, aonde você vai?" a unica reação do meu irmão ao me ver saindo com umas duas malas de casa.
"Para longe daqui." como se fosse óbvio dizer isso.
"Você vai ficar bem não vai?" ele disse preocupado.
"Prometo. Mandarei noticias" Foi tão involuntario dizer isso. Foi como se eu acabasse de vomitar palavras em cima do meu irmão.
Bati a porta com a vontade de que ela não abrisse mais para ninguém. Na hora, só consegui pensar em ver Laura então fui até a casa dela, e ela deixou eu ficar lá pelo tempo que eu precisasse. Nós conversamos pouco sobre o que tinha acontecido. Não queria falar disso tudo, ainda era como um baque pra mim , ainda machucava.
"Quer conversar?" Laura disse toda seria. E foi a unica vez na vida que eu a vi assim: toda séria.
"Não. Não agora." eu ja disse esticando os lençóis.
"Tudo bem, eu vou estar aqui se quiser conversar, ta?"
"Sim, obrigado. Por tudo." e peguei na mão dela com a menor condição de agradecer. E fomos para a cama dormir.
É a vida que muitas vezes acaba com nossas expectativas.

Um comentário: